top of page
Buscar

Crítica | A insatisfação de enxergar as distintas formas de conformismo

Ao início do documentário Orwell: 2+2=5, George Orwell afirma: “acreditar que a arte não deve ser política, é por si só um ato político”. Criei, então, uma breve esperança de que o filme pudesse ser um documentário que me agradasse, tendo em vista a semelhança intelectual que tive com a afirmação citada acima. Esperança essa, portanto,  que nas aproximadas duas horas seguintes foi fragmentada em pedaços desagradáveis de um filme que, além de ser mal montado, também me transmite um sentimento nada revolucionário e demasiado conformista. 

Com a direção de Raoul Peck, o filme é montado com uma linha de pensamento suficientemente lógica mas que se perde ao decorrer do tempo. Existe uma alternância, completamente ilógica, entre registros do próprio Orwell e um amontoado de referências cinematográficas, políticas e sociais, que torna o filme em uma combinação desordenada de dados e materiais de arquivo. Esse, portanto, não é o único problema. Essas inserções dos materiais de arquivo não apresentam uma mixagem adequada, e na realidade a falta de atenção nesse aspecto ultrapassa limites lógicos e me faz questionar a competência dos realizadores do filme. Isso porque essa característica causa estranhamento quando o volume do som de um vídeo apresenta ser mais alto comparado ao resto do filme - e infelizmente, esse problema não acontece em um material de arquivo isolado. 

As questões envolvendo a finalização não se limitam apenas à isso, na realidade se estendem ao viés da construção de uma identidade visual perdida, e por isso não contribui em momento nenhum com a construção criativa do documentário. Os motion graphics se alternam a cada dez minutos em versões completamente distintas uma da outra, resultando em um exagerado incômodo visual. O mesmo acontece com as inserções de vídeos de IA durante o filme, que são realizadas de forma simplista e mal acabada,  e por mais que possam contribuir com o conteúdo apresentado acabam tornando-se elementos vergonhosos para o espectador. 


Além disso, muitos materiais de arquivos são reutilizados durante o filme repetidas vezes, sobretudo cenas de filmes do livro 1984 do respectivo autor. Essa escolha cria no espectador um tédio visual e narrativo que incomoda e demonstra pouco cuidado com o filme por parte da equipe criativa - além dos tantos outros descuidos citados anteriormente. Nesse sentido, Orwell: 2 + 2 = 5 se apresenta como um filme fraco tecnicamente e narrativamente, e aparenta ter sido lançado antes mesmo de ser realmente finalizado. 

Da mesma forma, a construção que Peck faz da imagem de Orwell se tornou um aspecto decepcionante. É notória a importância do autor como crítico do colonialismo e totalitarismo e assim como em seus livros, ele discorre no documentário sobre os perigos, características e consequências desses regimes - como fazer-nos acreditar no resultado de cinco ao somar dois mais dois. Entretanto, as cenas e as falas se repetem sem nenhuma discussão sobre alternativas para saída de tais regimes, e embora exista a inserção de imagens de arquivos sobre protestos em busca de justiça e conscientização política, Orwell não propõe ações que de fato possam evitar esses regimes que ele tanto critica. Pelo contrário, ele se opõe a outros pensamentos, ideais e sistemas políticos que apresentam uma saída efetiva às sequelas do colonialismo. Desse modo, é inevitável perceber uma inconsistência em seu pensamento, já que apontar o problema e silenciar-se sobre como resolvê-lo é também um ato político. 


Orwell: 2+2 = 5 estreia nos cinemas dia 12 de fevereiro e é distribuído pela Alpha Filmes.

 
 
 

Comentários


  • Instagram
  • Instagram

©2023 por Embuscadefilmes. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page