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Crítica | 'O Agente Secreto': a cinéfilia como motor estrutural

Atualizado: 5 de nov. de 2025

Na década de 60, surgiu uma nova geração de realizadores no mundo: os cineastas cinéfilos, cujas referências pessoais eram marcadas na forma de encenar. Como os jovens turcos da Nouvelle Vague, influenciados por suas participações na crítica cinematográfica e pelo estudo teórico de André Bazin, e como os membros da Nova Hollywood, alunos das primeiras instituições de ensino em cinema e naturalmente influenciados pelos artistas da era de ouro. Essa geração foi movida pelo desejo de romper com as regras cênicas, estilísticas e de montagem anteriores, propondo novas leituras da linguagem, mas ainda apaixonada pelos classicistas, formando obras entre o saudosismo e o futuro.

Após 60 anos, cresceu-se este grupo de artistas, participando de uma teia de influências com filmes que referenciam obras que referenciam outras, preservando a história do cinema pelo estudo cinéfilo. Ao refletir sobre essa perspectiva no Brasil, o cineasta mais influente desse grupo é Kleber Mendonça Filho, que, em sua nova produção, O Agente Secreto, transforma-a, além de sua narrativa política, em um filme sobre cinema.


Making of O Agente Secreto
Making of O Agente Secreto

Com um recorte histórico estabelecido no ano de 1977, KMF concentra suas referências fílmicas no próprio período. Algumas delas são explícitas, devido às suas presenças físicas em cartazes de divulgação, citações em diálogos e projeções no histórico Cinema São Luís, como Tubarão (Steven Spielberg, 1975) e A Profecia (Richard Donner, 1976). Já as implícitas são diluídas nas construções atmosféricas, reproduzindo aparatos técnicos marcantes de cineastas sessentistas/setentistas, como o split diopter de Brian De Palma, recurso antinatural, desejado por apreciadores do maneirismo cinematográfico; o dolly suave em teleobjetivas anamórficas de Sergio Leone, que tanto comprimem os personagens com o espaço quanto pelas tarjas pretas presentes na projeção em cinemascope; e os efeitos práticos de John Carpenter, que plastificam a violência como espetáculo visual e tátil. É louvável que as inspirações presentes na mise-en-scène não sejam feitas de maneira protocolar, apenas utilizadas como gozo estético. Há, sim, uma reformulação desses dispositivos internacionais para uma narrativa geográfica e regional, centrada em sua cidade natal, Recife, em que o global se adapta ao nacional.

Além da transposição de sua paixão cinéfila, O Agente Secreto é um retrospecto de sua própria filmografia, voltando às temáticas que ainda o instigam e o assombram. Além da relação entre a resistência da memória no campo geográfico, que dialoga com Retratos Fantasmas (2023), comentado de maneira aprofundada por colegas críticos, opto por comentar especificamente sua relação com Aquarius (2016). O longa, estrelado por Sônia Braga, é centrado no drama íntimo de uma mulher de meia-idade (diferente de outras obras do diretor, de protagonismo grupal), lidando com a tentativa de ser despejada por uma empresa e de perder as memórias presentes em seu apartamento. Ainda que seja uma narrativa intimista, o micro dialoga com o macro, expandindo a personagem para um grande retrato da classe média recifense, que observa as transformações capitalistas sem grande poder, pois ainda é membro da classe trabalhadora. Agora, com um filme estrelado por Wagner Moura, KMF aprofunda tal reflexão, expandindo seu protagonista a um retrato da população brasileira sob a ditadura civil-militar, um desconhecido que não é artista nem político, apenas um professor perseguido por defender seu trabalho e pesquisa, desmentindo o discurso reacionário de que foi apenas um pequeno grupo caçado pelo regime. Nesse caso, o drama íntimo não é apenas expandido a um grupo regional, mas a todo um período histórico.


Frame do filme O Agente Secreto
Frame do filme O Agente Secreto

Ainda sobre o período histórico retratado, me agrada a escolha do antagonista da obra, o perseguidor de Marcelo, pois retoma um grupo com grande participação no mantimento econômico da ditadura civil-militar, constantemente protegido pela história: os empresários. Diferente de outras obras de mesmo recorte, a ameaça em tela vem de pessoas “comuns”, membros honrosos da família tradicional, burgueses e playboys. A violência é comprada, sem prisões e torturas, apenas um “acerto de contas”, rápido e silencioso.

O Agente Secreto é uma obra instável e, curiosamente, é isso que a torna interessante, pois é carregada pelo anseio de sugar até a última gota todas as possibilidades que a linguagem e a técnica cinematográfica podem oferecer: usar lentes analógicas, perambular por diferentes gêneros, transpor sua cinefilia, honrar espaços presentes em sua história, tudo em um só lugar. Retoma-se, assim, um pensamento que sigo como artista, que todo filme deve ser feito primeiramente para o cineasta, como um espaço para realizar seus desejos artísticos, para depois ser completado com a presença do público.


O Agente Secreto é distribuído pela Vitrine Filmes e estreia em 06 de novembro.


Texto: César F. P. Falkenburg

Revisão: Alice Faria



 
 
 

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