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Crítica | 'Nouvelle Vague': fantasiar-se de nossos heróis

Atualizado: 18 de dez. de 2025

Um acontecimento rotineiro, mas ainda assim interessante da crítica cinematográfica, é encontrar em nossas viagens fílmicas, temáticas que se alinham em diferentes formas narrativas, autorais e culturais de obras audiovisuais.

Recentemente, ao escrever minha crítica sobre O Agente Secreto (2025), comentei como a formação cinéfila de Kleber Mendonça Filho está ativamente atrelada à encenação e à construção atmosférica de sua obra. Após mais de um mês, encontro-me agora com outro cineasta cinéfilo, Richard Linklater, que, em sua nova produção Nouvelle Vague, faz uma amorosa declaração a Jean-Luc Godard ao retratar os bastidores de sua primeira obra, Acossado (1960).


Explicitamente, Nouvelle Vague é um filme de fã para fãs, não como um “fan service” meramente voltado a um resultado comercial, mas como a expressão do desejo do autor de se inserir, por meio de uma criação própria, no universo da efervescente produção dos jovens turcos, assim como quando, na infância, nos vestimos de super-heróis para nos sentirmos próximos dessas figuras em nossas criações alternativas. Linklater revive um passado saudosista que não presenciou, recortando-o e colando-o em seus anseios nerds, filmando em película, realizando pausas extradiegéticas para apresentar figuras históricas estáticas que encaram a câmera, com seus nomes exibidos em encartes, além de remodelar a França a partir dos trajes, espaços, carros e hábitos sociais representados por essa geração.

Como alguém que compreendeu os críticos da Cahiers du Cinéma ao afirmarem que o diretor deve ser o autor de sua própria obra, o maior responsável intelectual pelo resultado fílmico, Linklater não tenta emular o estilo de Godard, pois sabe que é impossível reproduzir as escolhas de um rebelde. Em vez disso, busca tornar-se mais um jovem turco, com linguagem própria. Ainda que fora de seu país, encontram-se o mesmo humor textual, a estética naturalista e o fascínio por personagens em metamorfose em diálogo com a arquitetura urbana. O único encontro mais direto entre os realizadores está na construção dos personagens, que se transformam também em criações de Godard, com trejeitos, caricaturas, oratória semelhante, tornando o diretor francês e sua equipe, personagens de sua própria filmografia.


Nouvelle Vague se sustenta em sua sinceridade ao homenagear uma geração a partir de uma visão autoral própria, sem buscar ser maior ou tão grandioso quanto Acossado, mas sim criar um processo imaginativo que permita ao público compreender a intensa paixão por produzir experiências cinematográficas, a sensorialidade gerada por sets caóticos e os fluxos mentais que conduzem às inovações artísticas.


Nouvelle Vague é distribuído pela Mares Filmes e Alpha Filmes e estreiou em 18 de dezembro.


Texto: César F. P. Falkenburg


 
 
 

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