O NEOCOLONIALISMO EM PRETO E BRANCO
- César Plaggert
- 30 de jan. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 21 de fev. de 2025

A Negra de… é um filme de drama lançado no ano de 1966, e dirigido pelo renomado escritor e cineasta Ousmane Sembène. No média, acompanhamos Diouna (M’Bissine T. Diop), uma senegalesa contratada para ser babá das crianças de um casal francês que possui negócios no país. Após seus chefes a convidarem para exercer sua função na França, ela sente os abusos e racismo dos brancos como nunca antes.
A primeira vez que assisti o média metragem tive uma conexão mais emocional com a história, me simpatizando com as dores da protagonista que definha mentalmente a cada abuso que sofre. Ao rever o filme meses depois, passei a vê-lo com um caráter analítico, observando a técnica cinematográfica de Sembène para construir o drama e claustrofobia em "A Negra de…". Nessa crítica, será abordado o contato racional e emocional que tive com a obra.
Em relação à narrativa, a qual me conectei emocionalmente e que possui um roteiro escrito pelo diretor sobre seu próprio conto, é possível perceber como ela expõe o neocolonialismo europeu velado nas relações entre empregado e empregador. Quando Diouna é convidada a ir para a França para cuidar das crianças de seus patrões (função que exercia no Senegal), é onde ela passa a sofrer a uma condição trabalhista análoga à escravidão, em que é obrigada a fazer tarefas que não exercia antes e sofre agressões verbais e até fisicas de sua chefe. Sem a possibilidade de fugir, sendo contida naquele pequeno apartamento, a protagonista definha mentalmente de forma gradativa, demonstrado pelo seu fluxo de pensamentos, que expõe seu incômodo em ser explorada daquele jeito, em que a única opção ao seu ver, é o suicidio.

O que tanto me impactou ao assistir o filme, portanto, foi a crueza de Sembène em expor esse acontecimento, o qual me fez compreender o real impacto do neocolonialismo no continente africano (especificamente no Senegal), algo que é escondido mas de grande letalidade.
Já sobre a técnica cinematográfica, foco de minha atenção ao assistir o filme pela segunda vez, percebe-se que ela é essencial para a construção claustrofóbica do ambiente e a repetição de pensamentos da personagem principal. A fotografia tem papel fundamental para a construção dessa sensação, pois utiliza de uma iluminação dura e planos que aproximam os personagens do ambiente, gerando uma imagem sem profundidade de campo, que torna o apartamento um local pequeno e limitador. Já a trilha musical, que se repete constantemente na obra e que forma um espaço sonoro de incômodo, dialoga com os pensamentos circulares de Diouna, expostos em voz off, em que ela diz que não veio para França para ser tratada daquele jeito. Sembène utiliza de uma técnica simples mas eficaz para construir a linguagem cinematográfica de A Negra de…, usando de elementos fotográficos e sonoros minimalistas para resultar em um maximalismo de sentimentos para o espectador.

A Negra de… é uma obra que se tornou uma das minhas favoritas por me impactar através de sua história e técnica, conversando com meu lado pessoal e com o de estudante de cinema. Sembène demonstra ser o que é falado sobre ele, um diretor com total domínio da linguagem cinematográfica, expondo uma ferida aberta do neocolonialismo por meio do audiovisual, e que resulta em um filme o qual ficará na história do cinema como um dos filmes mais importantes do continente africano,apresentando-se como uma fonte de estudo e admiração.
Texto: César F. P. Falkenburg
Revisão: Alice Faria
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