UM CINEMA SEM CONTROLE DE SI MESMO
- César Plaggert
- 28 de out. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 21 de fev. de 2025
De César F. P. Falkenburg
O cinema brasilleiro em sua história, se desenvolveu nas sombras de um dito cinema desenvolvido, em que os primeiros conteúdos fílmicos de nossas terras foram captados e exibidos por imigrantes, como por exemplo Afonso Segreto, o italiano que possui o título para muitos pesquisadores como dono do primeiro filme no Brasil, com as imagens feitas da Baía de Guanabara no ano de 1898 (SIMIS, 1996). A dificuldade da construção de uma indústria nacional cinematográfica se forma nos primeiros anos da invenção da nova arte, em que sempre dependemos de capital estrangeiro para produzirmos e distribuirmos. Nesse ensaio, será abordado uma comparação sobre a situação do cinema brasileiro no século XX com o texto “Uma Situação Colonial?” (1960) de Paulo Emílio Sales Gomes comparada com a situação no século XXI com o texto “Ainda Uma Situação Colonial” de Noel Carvalho e Jailson Ramos.

Começando com a situação do cinema brasileiro no século XX com o texto “Uma Situação Colonial?” de Paulo Emílio Sales Gomes, o autor discute com pessimismo como a indústria cinematográfica nacional se estrutura intelectualmente, em produção e distribuição com o exterior, visto tanto para o público e empresários como os “bons produtores de cinema”, consequentemente levando aos exibidores exporem obras audiovisuais vindas principalmente do Estados Unidos. Esse pensamento resultou no rebaixamento dos filmes nacionais como subdesenvolvidos, que não possuem uma qualidade artística, forçando aos cineastas a fazerem longas baseados principalmente na linguagem hollywoodiana para conseguirem algum resultado financeiro mínimo nas salas de projeção. Um exemplo do período (1950-1960) com essa estruturação colonial são os Estúdios Vera Cruz que se basearam na produção e distribuição Hollywoodiana para construir suas obras cinematográficas, que mesmo possuindo temáticas nacionais em suas narrativas, possuíam técnica de escrita e produtiva do exterior, consequentemente atraindo grande público em seus lançamentos. Como fonte de análise, segundo a Biblioteca Nacional (2020), o filme O Cangaceiro (1953) teve 800 mil espectadores no Brasil e o que mais chama atenção é a projeção que o longa teve internacionalmente, chegando a ganhar em Cannes, a Palma de Ouro de “Melhor Filme de Aventura”. Ou seja, quando se abdica de um cinema industrialmente e artisticamente nacional, se projeta a obra para o exterior.

Mesmo com a análise pessimista de Paulo Emílio, mostrando a preferência do povo aos filmes estrangeiros e dificuldade de exibição de longas nacionais (artísticos e comerciais), a situação do cinema brasileiro no século XX era mais próspera do que nos dias atuais, em que filmes de arte haviam grandes bilheterias e as pessoas frequentavam mais as salas de projeção. Segundo informações retiradas do Observatório do Cinema e Audiovisual (OCA) na lista “Filmes Brasileiros com mais de 500.000 Espectadores 1970 a 2022”, os filmes A Dama do Lotação (1978), em 7º com 6 milhões de espectadores, e Dona Flor e seus Dois Maridos (1976), em 5º com 10 milhões de espectadores, demonstra que filmes artísticos brasileiros (mesmo que também sejam comerciais) ainda atraiam grande público, com pessoas ainda interessadas em obras construídas com uma linguagem cinematográfica nacional. Ambos os longas tiveram distribuição da Embrafilme, uma empresa que tinha como valor fomentar a indústria cinematográfica nacional, ajudando principalmente cineastas do cinema novo, a fazer e exibir seus filmes, e dando a oportunidade de o cinema brasileiro ter um pouco de controle de si mesmo (Amancio, 2018). Outro dado interessante de ser analisado é da quantidade de salas de cinema e o público frequentador disponível no site “Filme B”, em que no ano de 1971 havia 2.154 salas e o público anual era de 203.020.339, que comparado com o ano de 2019, que é de 3.496 salas e com um público anual 177.317.232, demonstra que mesmo havendo um crescimento nas salas, as pessoas passaram a frequentar menos o cinema, em que no século XX havia um interesse maior na sétima arte como fonte de reflexão e divertimento.

Analisando a situação do cinema brasileiro contemporâneo, baseado no artigo Ainda Uma Situação Colonial? de Noel Carvalho e Jailson Ramos, os autores respondem à pergunta feita no título e também feita na década de 60 por Paulo Emílio Salles Gomes, que sim, o cinema nacional se mantém em uma situação colonial, ocupado pelo mercado estrangeiro que é recebido de portas abertas por grandes exibidores, como por exemplo a Paris Filmes e Diamond Filmes. Noel Carvalho e Jailson Ramos ao refletirem sobre o texto de Paulo Emílio, discutem sobre a semelhança da situação brasileira moderna e contemporânea, em que dizem o seguinte.
Em linhas gerais, a situação permanece mais ou menos como era nos anos 1960 e 1970: comerciantes de filmes estrangeiros (distribuidores e exibidores nacionais ou multinacionais) são os que se apropriam da maior fatia do mercado e, portanto, do capital; os produtores e distribuidores nacionais de obras relacionadas com a linguagem televisiva, o dito “cinema brasileiro contemporâneo de grande bilheteria” (Schvarzman, 2018), se apropriam de uma fatia média que lhe permitem um certo grau de monopólio do cinema nacional e há os produtores, ditos independentes, que se vinculam às distribuidoras pequenas e médias (Vitrine Filmes ou Embaúba Filmes, por exemplo) e ocupam um espaço pequeno no circuito comercial, apesar de terem certo prestígio na crítica e no meio dos festivais (DOS SANTOS CARVALHO ; RAMOS, 2024, p. 05)
Com esse trecho, volta-se a reflexão anteriormente comentada, que o cinema brasileiro precisa fazer um grande esforço para conseguir ter uma pequena porcentagem do controle do seu próprio mercado, por meio de certas distribuidoras que possuem objetivo quebrar essa grande muralha de produções audiovisuais com as salas de exibições. É possível fazer filmes de forma independente, se sustentando por editais e investimentos pessoais, mas para exibir as obras para o grande público deve-se ter grande quantidade de capital e principalmente reconhecimento, principalmente de grandes distribuidoras brasileiras, como por exemplo a Paris Filmes e Downtown Filmes, que foram responsáveis por exibir os filmes brasileiros de maiores bilheterias, como por exemplo Minha Mãe É Uma Peça (2013) e Nada a Perder (2018).
Analisando a situação do cinema brasileiro no século XXI por meio de dados, torna a discussão mais pessimista pelas informações apresentadas. Segundo a OCA, as sessões de cinema feitas em 2024 possuem a porcentagem de 85,5% de filmes estrangeiros, com o número de 2.599.067, e apenas 14,50% para filmes nacionais com 439.738. Esse dado chocante é causado por dois motivos já comentados, que são a rejeição de filmes nacionais, tratando-os como inferiores aos do exterior, e o colonialismo cinematográfico que tomou as principais distribuidoras brasileiras, que dão uma porcentagem mínima para obras nacionais por causa da cota de telas exigida pelo governo.
Todas as problemáticas levantadas por Paulo Emílio, Noel Carvalho e Jailson Ramos em contextos históricos distintos sobre a situação do cinema brasileiro levam a uma só pergunta: como fugirmos do colonialismo cinematográfico? Como escapar de algo que caminha com o nosso cinema desde sua fundação? Parece que esses questionamentos não possuem respostas, devido que todas as tentativas de fomento do audiovisual tiveram pouco tempo de sucesso ou nem atingiram seus objetivos. O que pode ser feito é pensar em possibilidades de diminuir a distância das produções com suas exibições. Em primeiro lugar, é essencial aumentar a cota de telas, que segundo Brasil (2024), é de apenas 7,5 a 16%, sendo necessário forçar os distribuidores a fornecerem mais salas de projeção para nossos filmes, pois com o diálogo não houve mudança, é preciso ter medidas mais drásticas. Em segundo lugar, deve-se ter uma empresa ligada ao estado que se dedique para a distribuição de obras audiovisuais, principalmente de projetos que foram financiados por editais, semelhante a Embrafilmes que teve papel fundamental de ajudar a exibição de longas do Cinema Novo e Marginal.
Texto: César F. P. Falkenburg
Revisão: Alice Faria
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL, Mariana. Entra em vigor lei que cria cota mínima de sessões para filmes brasileiros nos cinemas. Folha de São Paulo, 2024. Disponível em: https://folha.com/0q5a3ihv. Acesso em: 25 set. 2024
DOS SANTOS CARVALHO, Noel; RAMOS, Jailson. Ainda, uma situação colonial? Uma reflexão sobre a dependência estrutural do cinema brasileiro. Rebeca-Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, v. 13, n. 1, 2024.
EARP, Fabio Sá. O espectador eventual: notas sobre a demanda por cinema no Brasil. Políticas culturais em revista, v. 2, n. 1, 2009.
GOMES, Paulo Emílio Sales. Uma situação colonial?. Editora Companhia das Letras, 2016.
O Cangaceiro, de Lima Barreto, primeiro filme brasileiro a ganhar prestígio internacional. Biblioteca Nacional, 2020. Disponível em: https://antigo.bn.gov.br/acontece/noticias/2020/04/cangaceiro-lima-barreto-primeiro-filme-brasileiro#:~:text=ganhar%20prest%C3%ADgio%20internacional-,%22O%20Cangaceiro%22%2C%20de%20Lima%20Barreto%2C%20primeiro%20filme%20brasileiro,30%20de%20abril%20de%202020.&text=Com%20estreia%20mundial%20em%2020,brasileiro%20a%20alcan%C3%A7ar%20prest%C3%ADgio%20internacional. Acesso em: 18 set. 2024
ORTIZ, José Mario et al. Nova história do cinema brasileiro-volume 2 (edição ampliada). Edições Sesc, 2018.
SIMIS, Anita. Estado e cinema no Brasil. SciELO-Editora UNESP, 2017.
TRUSZ, Alice Dubina. Cinema e imprensa ilustrada nos anos de 1910: a vida passa e as imagens ficam. Orson–Revista dos Cursos de Cinema do Cearte, p. 9-29, 2011.
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